De escolas e pan-óticas

José Luís do Pico Orjais é professor de ensino primário na paróquia de Taragonha e musicólogo

Quando virei professor de primária, marquei como principal objetivo da minha atividade docente propiciar a formação de um alunado feliz e livre-pensador. Mal percebera que aquela tarefa, tão elementar como hercúlea, era um campo cheio de inúmeros obstáculos que eu tinha que ir driblando no dia a dia da vida escolar.

A escola conta com todos os elementos necessários para conduzir o alunado ao fracasso. Podemos afirmar, sem temor a erro, que as meninas e meninos apreendem apesar de frequentarem a Escola. A imagem da pan-ótica de Onfray, tirada do Vigiar e punir de Foucault, é tão potente como certa. Escrevia Foucault: “Devemos ainda admirar-nos que a prisão se pareça com as fábricas, com as escolas, com os quartéis, com os hospitais, e todos se pareçam com as prisões?” Pois não admira. A administração, por decreto lei 4/2011 de 30 de junho, deu ao professorado estatuto de autoridade pública e presunção de veracidade; só nos falta entrar no centro vestidos de verde e com tricórnio.

Em quase todas as escolas há um pátio interior em volta do qual se vão dispondo as aulas, departamentos estanques cujas portas fazem de cada turma um pequeno reino do seu diretor ou diretora. Para aqueles que acreditam na comunicação, no trabalho em equipa, há portas infranqueáveis; cada quem pode, se o desejar, fazer e desfazer a seu bel-prazer no interior do seu nicho.

Mas, com as ferramentas com que contamos, é possível lutar contra o status quo. A Escola pública pode e deve sair do seu ancoramento. As professoras e professores contestatários temos de romper com os livros de texto, correia de transmissão das mais reacionárias das ideias impostas polo Estado, cristalizar as paredes das nossas salas de aula, para sermos vistos do exterior e apostar firmemente em potenciar os lugares comuns. Contra o isolacionismo das aulas, proponho reconquistar as bibliotecas, o pátio escolar, que não carcerário, criar, se for possível, o horto escolar e, sobretudo, achegar à comunidade os centros de ensino. É preciso que as famílias se envolvam na educação dos filhos não só para ajudarem os professores e as equipas diretivas, como também para valorizar o seu trabalho.

Qualquer tentativa virada a desvincular o ensino das ideias antissociais e elitistas que o dominam, vai dar sempre em fracasso. Isto é devido em parte a o professorado ser um dos grémios mais consevadores. O ensino está formado por indivíduos obcecados em quantificar os conhecimentos dos seus discípulos e em não perder privilégios atávicos. Mas, paradojalmente, quando isto acontece, ficam imóveis, à espera de outros lhes resolverem os problemas.

Quando passamos das notas numéricas para os “progressa adequadamente” ou “precisa melhorar”, sentimos que nos abalavam do pedestal avaliador em que estávamos guindados. Que seria de nós-outros sem podermos valorizar o saber em décimas de ponto. Quando a leve brisa progressista deixou de soprar voltamos ao velho mundo dos zeros, cincos e dezes. Mas, e a nós quem nos avalia?

Porém, a imagem mais potente, juntamente com o pan-otismo, podemos vê-la se contemplarmos um claustro. É só ocuparmos uma cadeira nele para observarmos como um professor ou professora de Religião Católica senta entre os colegas funcionários de carreira. Sendo que a palavra e voto daquele tem o mesmo valor que o destes. Porém, o despropósito pode chegar ao absurdo de a matéria de Religião ser lecionada em nove sessões semanais de aula nos seis nívies da primária, enquanto a matéria de Música imparte-se apenas em seis sessões. Mas não finalizam cá os desatinos. Enquanto a matéria de Religião é avaliável, as matérias Atenção Educativa ou a antiga Ética, não o são. Além disto, a matéria de Religião é avaliada com uma classificação unitária, enquanto a classificação de Música e Educação Plástica são o resultado da média das duas matérias. E ainda, Religião tem conteúdo curricular, enquanto Atenção Educativa, não. A questão pode chegar, e de facto chega, a extremos tais como um docente de Religião ocupar um cargo na Direção de um centro ou uma vaga de controlo educativo, na comissão Pedgógica ou no Conselho Escolar, de maneira a os administrados passarem a ser a totalidade do alunado, incluindo aqueles que escolheram a matéria alternativa à Religião, cientes de uma educação laica.

Qual é o programa que a direita tem para o ensino público? Pois suspeito que a sua destruição paulatina, beneficiando o setor privado, nomeadamente, através dos injustos concertos, o que se traduz num sistema feito para privilegiar as elites, as suas elites, sustentadas aos peitos dos Grandes Vigias da pan-ótica. E nós, os vigiados, vamos ficar mais uma vez imóveis?

Texto d’O Peteiro, n.º 1. Sob licença Creative Commons BY-SA. Agradece-se citação da origem nos seguintes termos: “Artigo publicado originalmente na revista O Peteiro, n.º 1, abril de 2012. Acessível em: http://pt.calameo.com/read/00120331298bff7be2f6e

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