Montes vizinhais: mudanças nos usos energéticos

Xosé Alfredo Pereira Martínez é Presidente da Organização Galega de Comunidades de Montes Vizinhais em Mão Comum

Hoje por hoje, parece haver coincidência em que um dos principais problemas que tem a humanidade é a mudança do clima, produzida pola emissão à atmosfera de dióxido de carbono. Também parece concordar todo o mundo em que a maioria das fontes de energia usadas hoje em dia, derivadas de recursos fósseis, para além de poluentes, não são renováveis. São finitas.

Nos montes vizinhais temos matérias-primas para usar como fonte de energia. Matérias-primas que para além de não poluentes são renováveis. Trata-se da biomassa florestal residual gerada polos trabalhos de silvicultura e dos restos das cortas de madeira – não a proveniente dos cultivos energéticos, consistentes em plantar árvores que são cortadas aos quatro ou cinco anos para serem queimadas. Esta última escolha, que é a opção das grandes empresas do setor, não propicia um monte vizinhal multifuncional e sustentável, mas um monte em regime de monocultura florestal que empobrece as terras tornando-as em pasto incendiário.

Os concelhos galegos, por serem hoje a instituição representativa mais próxima da cidadania, teriam muito a dizer em relação à mudança nos usos energéticos. Mesmo que o protagonismo lhes correspondesse às mancomunidades, as administrações deveriam ser pioneiras na transformação dos seus próprios usos energéticos. Poderia-se começar trocando, mesmo que de jeito paulatino, os combustíveis fósseis utilizados nos atuais sistemas de aquecimento de edifícios públicos (colégios, pavilhões desportivos, casas da cultura, prédios administrativos, etc.), pola biomassa florestal residual.

Trata-se de uma fonte energética existente nos montes vizinhais e que as próprias comunidades de montes das paróquias do concelho ou concelhos limítrofes poderiam fornecer, minimizando os ciclos de produção, distribuição e consumo. Uma simples aposta na mudança de usos energéticos desde as administrações locais serviria como catalisador para os vizinhos e vizinhas de aldeias e paróquias abrirem caminhos para estenderem o fornecimento a consumidores particulares, indivíduos ou empresas.

Embora, hoje por hoje, as caldeiras de biomassa tenham um custo elevado (aproximadamente três vezes superior às de gasóleo), também o desempenho é 4/5 vezes superior ao dos combustíveis fósseis, representando uma poupança considerável no consumo. Isto, junto com o previsível aumento exponencial do preço dos combustíveis fósseis nos próximos anos, faz com que o investimento inicial possa ser amortizado num período relativamente curto (aproximadamente 5 anos).

Se as administrações públicas apostarem na transformação dos seus usos energéticos, não estarão a combater apenas a mudança climática, como também participando na prevenção de incêndios florestais, poupando faturas energéticas pagas com o dinheiro público, e contribuindo a pôr em valor os montes vizinhais de forma multifuncional e sustentável e, finalmente, o que implica apostar na criação de emprego.

Calcula-se que o uso da biomassa como fonte energética gera 135 empregos por cada 10.000 habitantes, em oposição aos 9 que podem gerar o gasóleo ou o gás natural. Ainda, o emprego gerado acrescenta valor ao próprio território e comunidades, ao concretizar-se desde a ótica da economia local, o desenvolvimento dos recursos endógenos, e as fórmulas cooperativas de trabalho. Estarão a apostar no direito ao trabalho na própria terra, um direito social que possibilitará ainda a contratação de coletivos com especial dificuldade no acesso ao trabalho: mocidade, mulheres, pessoas com diversidade funcional e maiores de 45 anos. Em síntese, emprego gerado a partir e através da gestão comunitária dos recursos que lhes são próprios.

Texto d’O Peteiro, n.º 1. Sob licença Creative Commons BY-SA. Agradece-se citação da origem nos seguintes termos: “Artigo publicado originalmente na revista O Peteiro, n.º 1, abril de 2012. Acessível em: http://pt.calameo.com/read/00120331298bff7be2f6e

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