Colaboração, reutilização, liberdade

Adrião Morão é estudante de Engenharia Informática na Universidade da Crunha e membro do Partido da Terra

As quatro liberdades do software livre são:

0. Executar o programa, para qualquer propósito.
1. Estudar o programa.
2. Distribuir cópias do programa.
3. Modificar o programa (e distribuir as mudanças).

Estas quatro liberdades, enunciadas pola Free Software Foundation, garantem que um programa de computador é livre desde que fornece a capacidade de sermos donos das ferramentas que empregamos. Embora pareça um assunto fútil, não o é tanto se pensarmos nos programas de computador que emprega a maioria dos usuários. Garantem estes quatro pontos? Provavelmente não; porém, na sua licença de utilização, restringe, quer a livre execução, quer a capacidade de estudo ou modificação ou, caso especialmente conhecido, a liberdade de distribuição.

Porque são importantes estas quatro liberdades? Cada uma delas está enunciada por uma razão. No seu conjunto, garantem o controlo da ferramenta por parte de quem a utiliza, quer dizer, a soberania do utilizador. Vamos analisar cada uma delas fazendo um paralelismo com o mundo das receitas gastronómicas.

Da mesma maneira que a receita das filhós da minha avó pode ter diferentes usos segundo os meus propósitos culinários, também tenho absoluta liberdade para executar um programa com qualquer finalidade.

Também o estudo do código e do programa é algo tão simples como ler com atenção aquela receita e seguir passo a passo o processo de elaboração, de jeito a fixá-lo na memória para poder repeti-lo quantas vezes for preciso. Não é difícil lembrar qual a proporção necessária de farinha, ovos e leite para fazer filhós.

E falando de liberdade, eu posso distribuir cópias do programa da mesma maneira que a minha avó partilhou os segredos da receita com a minha mãe, ela comigo, e eu com quem quiser, tal como as ideias de George Bernard Shaw.

Por último, a liberdade para modificar o programa é equivalente à de mudar as proporções dos ingredientes, e até de remover ou acrescentar outros. Talvez ela preferisse comer as filhós sozinhas, mas eu gosto mais de as acompanhar com chocolate, ou com mel, ou de as fazer com menor quantidade de farinha… E como tenho também a liberdade de passar a receita a quem quiser, posso também partilhar a minha maneira pessoal de elaborar as filhós da avó.

Os projetos de software livre são de crescimento rápido, localizam antes os erros e solucionam-nos com maior prontidão. A lógica é simples: duas cabeças pensam mais rápido do que uma. Levando isto à escala de dezenas, centenas ou milhares de cabeças a pensar no mesmo problema, dá para ter uma ideia do potencial.

Controlarmos as ferramentas que empregamos garante um grau de liberdade maior do que as não controlar. Mas, para além da soberania e da liberdade, qual é o espírito subjacente? A colaboração: o trabalho colaborativo de muitas pessoas para solucionar um problema, a circulação de ideias, o enriquecimento da comunidade, a reutilização do trabalho feito. Estas são as ideias que conformam a filosofia do software livre.

A colaboração de pessoas num projeto comum garante uma diversidade de perspetivas que noutro caso não haveria. Quantos mais olhos a examinar o mesmo programa, maior capacidade para detetar erros e procurar soluções. As ideias são aperfeiçoadas e enriquecidas com inúmeros contributos, de maneira a se retroalimentarem. Assim, o que tinha começado sendo uma bola de pão, pode ir dar numa torta de compota, deixando no caminho ideias para se tornarem novas receitas. E se ainda existisse quem tenha já inventado a receita da torta de compota, poupar-me-ia de o fazer eu.

A reutilização é uma característica inerente a este modelo livre. Nada adianta inventarmos a roda cada vez que desenhamos um carro, pois é tempo perdido que poderia ser empregue em solucionar problemas ainda por resolver. No caso do software livre, é o mesmo: podermos ver o que fazem os demais poupa que haja duas pessoas a trabalhar num mesmo problema. Podem é trabalharem juntos e abordarem o problema de diferentes maneiras. Ambas soluções são benéficas para a comunidade, dado que garantem, de um modo ou de outro, o aproveitamento dos esforços de todos os membros.

Na realidade, o software livre não propugna nada que não tenha sido já inventado. Porém, está é a ser levado à prática cada dia. Uma filosofia que garante liberdades e fornece o ambiente necessário para a colaboração, a reutilização, a circulação de ideias e, enfim, o progresso da sociedade na procura de uma coabitação das pessoas, não da luita entre elas.

Texto d’O Peteiro, n.º 1. Sob licença Creative Commons BY-SA. Agradece-se citação da origem nos seguintes termos: “Artigo publicado originalmente na revista O Peteiro, n.º 1, abril de 2012. Acessível em: http://pt.calameo.com/read/00120331298bff7be2f6e

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