«Só a assembleia é participativa». Entrevista a Félix Rodrigo Mora

Félix Rodrigo Mora, autor d’O atraso politico do nacionalismo autonomista galego, é entrevistado por José Tubio.

OP: Félix, gostaríamos de conhecer-te. De onde és?
FR: Sou de muitos lugares, pois a minha vida tem sido bastante movida. A minha família é da zona do norte de Guadalajara e Sória, do coração de Castela, hoje um território praticamente deserto. Meus pais estão soterrados em Sória capital, onde viveram muitos anos. Conheci de criança o mundo rural popular tradicional castelhano, em condições de bastante pureza e, na primeira juventude, a grande concentração industrial do sul de Madrid, especialmente Getafe, Leganés, Pinto e os dous Villaverde. Depois andei muito por diversos lugares. Acredito que este contraste entre o universo agrário tradicional, de concelho aberto, comunal e convivencial e a grande indústria moderna, na qual comecei a trabalhar com 18 anos, foi-me muito útil para compreender melhor a realidade social.

OP: Tens antepassados galegos. Tem influído isto em que decidisses escrever sobre a Galiza?
FR: Minha família materna falava-me vagamente de que tínhamos um antepassado galego, mas já não lembravam o nome, apenas o facto. Minhas pesquisas permitiram-me saber que por volta de 1840 se tinha afincado na aldeia onde depois nasceria a minha mãe um jovem galego, canteiro de ofício. Na ata de matrimónio aparece como José Mora Carballido, nascido em Tominho. Ao achar o seu registo de nascimento vimos que figurava como José Moure Carballido. Não era infrequente que os emigrantes galegos que ficavam em Castela castelhanizassem (ou lhes castelhanizassem) o seu primeiro sobrenome. Na comarca conservam-se ainda várias casas feitas por José, algumas de qualidade, todas populares, tradicionais, em pedra. Sempre lhe tive afeto, mas o que mais me motivou para escrever O atraso politico do nacionalismo autonomista galego foi a enorme admiração que me suscitava o mundo rural popular e tradicional da Galiza. Não é por acaso que fosse o que mais resistiu a modernidade de todos os integrados na “Espanha” e o último a cair, quase um quarto de século depois do que o castelhano.

OP: Algumas pessoas consideram excessivas as tuas críticas a Beiras. Porque achas que a sua proposta socioeconómica foi e é nefasta para a Galiza?
FR: O de Beiras é patético. Vai de nacionalista quando em realidade é um autonomista, isto é, um integrado no Estado espanhol, um espanholista. Em segundo lugar, a sua apologia do industrialismo e do desenvolvimentismo é especificamente franquista, dos Planos de Desenvolvimento dos anos 60 do século passado. Algo muito reacionário, por tecnocrático, urbano e industrialista. Conhecia o seu livro O atraso económico… desde faz muitos anos e suscitava-me escândalo e indignação a sua desvalorização do mundo rural galego, do qual desconhece quase tudo, como bom tecnocrata que é, apenas preocupado polo crescimento das macromagnitudes económicas, com desdém polos seres humanos reais, polo povo, pola sua língua, cultura, história e saberes. A sua indiferença ante o universo rural da Galiza, que se converte em desprezo no fim das contas, estava nas antípodas da minha posição, de admiração e fervor. Por isso, quando um coletivo de amigos de Ferrol fez a proposta de converter num pequeno livro a minha posição, não tive dúvida. As minhas críticas à obra de Beiras não são “excessivas” mas escassas, muito escassas, pois contribuiu bastante à espanholização da Galiza, à dramática erosão da língua e ao aniquilamento final do pior jeito possível, polo Estado espanhol e polo capitalismo, de uma formação social admirável e magnífica: a sociedade rural popular tradicional galega, hoje quase desaparecida, infortunadamente. Sobre esta há que escrever e fazer mais, muito mais, para legar às novas gerações uma imagem o mais exata possível do que foi Galiza, imprescindível para pensar e realizar o que há de ser e será, autodeterminada, soberana, popular, magnífica e livre.

OP: Como interpretas o processo de fragmentação do nacionalismo galego à luz da tua obra?
FR: Não estou bem informado do dia a dia do nacionalismo galego, mas entendo que um processo de convergência e unificação deve ir para a frente. Trata-se de superar um tempo nefasto em que o espanholismo, isto é, o autonomismo (seja nestes termos ou na forma de federalismo), se apresentava como nacionalismo. A chave estaria na admissão de um programa comum e uma estratégia unificada, na que pudessem participar todos os coletivos e pessoas, para abordar com êxito o tempo político que vem, muito agitado, pois toda a Europa se está desmoronando numa crise múltipla e de muito longa duração. Algumas chaves desse possível programa deveriam ser, ao meu juízo, um acordo sobre a história da Galiza na era contemporânea, desde o século XVIII até ao presente, como nação submetida por Espanha; um acordo sobre a língua; um programa sobre a ordem política, assembleária; e uma estratégia de revolução integral, que deve incluir o modo e o momento da conquista da soberania para a Galiza, concebida como comunidade total, restaurada e regenerada, com a sua língua e as suas instituições nediamente diferenciadas das espanholas, recuperada em termos ambientais e humanos, sem Estado (nem espanhol nem galego), sem capitalismo.

OP: A democracia direta é um eixo fundamental em toda a tua obra. Consideras possível reformar as estruturas atuais, ou achas imprescindível o seu abandono e a recuperação de formas assembleares tradicionais como os concelhos abertos?
FR: Entendo que o decisivo hoje é a questão da consciência, da compreensão. No momento de uma mudança de época em Europa, desde um período de estabilidade a outro de tensão e crise geral múltipla em desenvolvimento, o mais importante, especialmente nos próximos anos, é levar aos setores mais avançados a ideia, bem argumentada, de que o parlamentarismo, o mesmo que o fascismo, não é um regime de participação política do povo, mas uma forma de ditadura, de opressão, de tirania. Só a assembleia é participativa, e unicamente um regime de assembleias de todo soberanas pode realizar a liberdade política. Daí os meus estudos sobre o concelho aberto do passado, que se dava numa sociedade parcialmente assembleária (ao fim e ao cabo havia aparato estatal, embora débil, nomeadamente no campo). No futuro o governo por assembleias há de ser total, sem nada de aparato estatal. Não creio que se possa passar evolutivamente do parlamentarismo ao autogoverno por meio de juntas populares mas sim concordo em expandir já agora tudo o que pudermos as manifestações de assemblearismo, embora sem desgastar ou desprestigiar este por um uso mal orientado, excessivo o inclusive demagógico. A assembleia é uma cousa muito séria e tem que ser usada com respeito, tacto e inteligência, sem banalizá-la, sem frivolizá-la.

OP: Não tens dúvidas em caracterizar o parlamentarismo como ditaduras. Em que se diferenciam estes regimes de sistemas totalitários como o fascismo ou o comunismo soviético?
FR: O parlamentarismo e o fascismo, na sua versão de direitas (Mussolini, nazis, Franco, teocracias islâmicas, etc.) ou de esquerdas (a URSS, China, Cuba, Coreia do Norte, etc.), são em essência formas de ditadura das elites políticas, militares, culturais e económicas. O parlamentarismo põe mais acento na demagogia e na manobra política, e o fascismo na repressão direta. Mas isso não significa que o parlamentarismo não acuda à violência quando precisar dela, tal e como fez, por exemplo, a II República espanhola em outubro de 1934, que esmagou a resistência operária e popular com quase 3.000 mortos. O certo é que, enquanto os fascismos estão bastante desacreditados (ninguém, salvo uns quantos lunáticos, deseja viver como na Coreia do Norte), o parlamentarismo é apresentado polos partidos de base popular, os de esquerda, como “democracia” e “regime de liberdades”, o que é de todo erróneo e falso. A chave política hoje é a crítica fundamentada do parlamentarismo, na sua forma monárquica e também na sua expressão republicana. Dela há de sair um programa de liberdade política, liberdade civil e liberdade de consciência que crie uma futura sociedade livre de maneira razoável, o suficiente mas não perfeita, total ou completa, o que não seria possível devido à patética e limitada condição humana. Desejo acrescentar que a equiparação entre “o público” e o Estado que faz a esquerda é uma ideia franquista, fascista; pois se o Estado é o público, então o exército é o povo, e vice-versa. Isto realiza a ideia de Franco sobre a fusão povo-exército. A esquerda é uma forma latente de totalitarismo que se torna fascismo em atos logo que se deem as circunstâncias históricas. A mim, que sou um antimilitarista decidido, escandaliza-me ouvir que o Estado, isto é, o exército, é “público”, estremece-me.

OP: Alguns dos teus críticos consideram-te anarquista. Estás à vontade com esta etiqueta?
FR: Não tenho ideologia definida, não desejo tê-la e portanto não sou anarquista. O meu critério é que se deve criar uma grande confluência de movimentos e pessoas para realizar a revolução. Isso exigiria que houvesse um movimento libertário forte, como uma das forças revolucionárias em ação, ao lado dum movimento nacionalista poderoso (para o caso das nações oprimidas, de Galiza, não para Espanha, pois o nacionalismo espanhol é de todo reacionário), e inclusive um movimento marxista potente, se bem libertado de toda aderência social-democrata, sem esquecer as forças cristãs e de todas as outras religiões, na sua vertente de apoio a uma grande mudança revolucionária. Também deveria haver muita gente como eu, isolada ou organizada, sem una ideologia definida e que por isso mesmo possa fazer de nexo de encontro, união e concórdia entre as diversas correntes. Por outro lado, julgo necessário pôr em andamento uma nova forma de conceber os problemas políticos, económicos, históricos, axiológicos, espirituais e existenciais, própria do s. XXI, que impulse o conhecimento e faça com que não fiquemos estancados e até obsoletos. Das ideologias do passado, com frequência tenho a impressão de lhes custar muito estar à altura dos problemas de hoje e de continuarem paralisadas nas velhas formulações, hoje, em grande medida, inservíveis. Têm que se atualizar, por-se à altura das circunstâncias, hão de evoluir, de pensar criativamente sacudindo o sopor e a rotina mental, conetando com a realidade e rejeitando os dogmatismos. Hoje temos que ser criativos e inovadores ou não conseguiremos nada frente aos poderes, descomunais e despiedados, que temos em frente. Poderia definir o meu ideário em vinte noções organizadoras: verdade suficiente, disposição para o esforço e o sacrifício, sociabilidade em atos, prevalência do espiritual, autogestão do saber e o conhecimento, beleza e sublimidade, virtude pessoal, esquecimento do ego, emancipação total das mulheres, visão estratégica, pobreza decorosa, fortaleza interior, reflexão regular sobre o próprio mal interior, universalismo com sólidas raízes no autóctone, autodisciplina meditada, servir sem ser servido, autoconstrução do sujeito, criatividade sistémica, atenção ao existencial e revolução integral.

OP: Qual o papel da reocupação do rural no rechaço ao atual modelo social, político e económico?
FR: A recuperação rural é uma parte, ou deveria sê-lo, duma estratégia integral de revolução. A sociedade atual é urbana, despreza e destrói o rural porque privilegia a cidade, portanto ir contra isto é subverter a ordem constituída. Muito importante é o esforço por desenvolver a consciência em relação com estes assuntos, pois o que se pode fazer no terreno prático aqui e agora é limitado. Não vivemos numa sociedade livre mas noutra muito opressiva e impositiva, e por isso o já factível é reduzido no terreno das ações concretas, embora seja mais amplo no âmbito do fomento da consciência. A refutação das fúnebres cantilenas desenvolvimentistas, produtivistas e pró-cidade, como se encontra, por exemplo, na obra escrita de Beiras e os seus colegas, é de bastante importância. Devemos caminhar sobre os pés, um é o já possível de realizar e o outro o desenvolvimento ao máximo da reflexão, a argumentação e as propostas, isto é, da consciência, para colmatar as grandes demandas de uma idade histórica tão temíveis como esperançadas. Assim poderemos chegar longe, muito longe.

OP: Quais os instrumentos mais apropriados de mobilização cidadã para a reconquista da sua soberania?
FR: Esse assunto suscita-me dúvidas. Há várias questões sobre as que ainda não atingi uma posição definida, polo que respeito a elas vivo na confusão. Considerando que o fomento da consciência é a tarefa mais importante hoje, posto que temos multidão de assuntos sobre os que não sabemos o que dizer, inclino-me porque toda atividade, seja qual for, de tipo social ou político, deve ir complementada por equipas de trabalho dedicadas a forjar as ferramentas da ação política contemporânea. Num artigo intitulado “De la intervención política” exponho esta formulação com mais detalhe e a ele remeto à leitora ou leitor. Derrotar o par Estado espanhol-capital, os seus agentes mediáticos, intelectuais e políticos, a batalha das ideias, ou inclusive meramente assestar-lhes alguns golpes decisivos neste terreno, seria medular para o desenvolvimento da prática estratégica e histórica de revolução integral. Devemos pensar em termos de cem anos mais ou menos e não limitarmo-nos aos próximos dez dias, como costuma acontecer. Temos que nos sentir como sujeitos da história e não como criaturas da conjuntura, pois os descomunais e gravíssimos problemas que se acumularam precisam um tempo histórico para serem solucionados. No curto prazo, hoje não se pode conseguir nada de importância, e os que induzidos polo pragmatismo e o utilitarismo fiquem aí serão, mais pronto que tarde, triturados polo decorrer dos acontecimentos.

OP: Qual o papel da técnica numa sociedade democrática?
FR: O assunto da técnica numa sociedade livre está explicado no meu trabalho “Por una sociedad desurbanizada y desindustrializada”, contido como capítulo V em Naturaleza, ruralidad y civilización (editorial Brulot, 2008). A essência da minha posição é: 1) não venerar a tecnologia, 2) considerar as suas muitas negatividades, dado que na sua grande maioria é criação dos Estados, dos exércitos, 3) crer sobretudo nos seres humanos e não nos objetos ou sistemas técnicos, 4) diferenciar entre aquela que é inaceitável, a que pode ser admitida com modificações mais ou menos importantes e a já apta para uma valoração positiva. Para isso preconizo um programa de 11 pontos que permite qualificá-la e distinguir esses três tipos de tecnologia. Numa sociedade livre futura surgirá com segurança uma tecnologia nova, popular, qualitativamente diferente da atual, mas sempre haverá de ser considerada como secundária respeito ao desenvolvimento integral das qualidades, capacidades e aptidões do ser humano, como sujeito e como ser social. Nisto sou de um humanismo radical: O mais importante são os seres humanos, não a tecnologia.

OP: Movimentos como o 15M apresentam a democracia direta como algo novo. Trata-se de uma inovação ou forma parte do acervo comunitário da sociedade tradicional galega?
FR: Sobre o 15-M tenho um texto, “Pensar el 15-M”, incluído no livro Pensar el 15-M y otros textos (Manuscritos, 2012). A ele remeto. A eleição da assembleia como forma de expressão e participação, de auto-organização e reflexão coletiva, vincula este movimento social com o mais autêntico e genuíno dos povos da península ibérica, virando-o continuador do melhor da milenária história deles. Outra cousa é sermos hoje capazes de fazer da assembleia uma ferramenta útil, pois o sistema educa-nos para sermos sujeitos não aptos para o funcionamento assemblear, como neo-servos associais e ininteligentes. E isso, não é fácil de superar. Também está por investigar se na atual conjuntura é a assembleia o elemento decisivo, ou é a equipa de trabalho, que também se tem dado no 15-M. Visto que vivemos um tempo histórico trágico e desesperado, com uma acumulação colossal de problemas, sendo a destruição da essência concreta do ser humano a mais grave de todos, temos é que afinar muito e ser muito criativos, pois os modelos do passado, se bem o inspiram não são capazes de resolver por si próprios a hora presente. Sem investirmos muito tempo e esforço a auto-construirmo-nos como sujeitos de qualidade não poderemos avançar para além dum ponto, de todo insuficiente, em nenhuma das atividades hoje necessárias. Por isso, não devemos atrapalhar-nos tanto em mono-discursos inúteis ou em práticas reducionistas, como sermos integrais e holísticos.

OP: Criticas a esquerda polo seu apoio incondicional ao Estado. Até que ponto esta esquerda pode promover uma mudança nas estruturas económicas, sociais e políticas?
FR: Com efeito, sobretudo no meu livro El giro estatolátrico. Repudio experiencial del Estado de bienestar (Maldecap, 2010) forneço dados, não todos os existentes, que são muitíssimos, assim como análises sobre a esquerda e o capitalismo. A esquerda, em todas as suas versões, faz parte do sistema de dominação da mesma maneira que a direita, incluída a esquerda “nacionalista” em Galiza, Euskal Herria, Catalunha, etc. Faz parte, por exemplo, dos órgãos diretivos das caixas de poupança, tão poderosas no âmbito das finanças; participa nas empresas do capitalismo de Estado, nutre-se dos fundos dedicados às ONGs, uma parte das quais controla; engorda através das suculentas injeções de capital que o Estado outorga aos sindicatos amarelos, espanholistas e “nacionalistas”, enche os bolsos com as Fundações disto e do outro, agarra montões de euros com os escandalosos subsídios outorgados a intelectuais e artistas progressistas (por certo, esta gente, o que cria?, para que serve?), etc. Portanto, por que haviam de subverter o sistema de que fazem parte e do qual vivem tão deliciosamente? Por isso a banca financia a fundo perdido as suas campanhas eleitorais, 1,6 milhões de euros para IU nas passadas eleições. São meramente um setor explorador e parasitário, uma parte do capitalismo de Estado. A esquerda ainda costuma se armar em marxista, ora, se fizesse uma análise marxista do que é ela mesma concluiria o que exponho, mas esses partidos e grupos só invocam o marxismo para embaucar os sus crédulos e desmobilizados votantes, não para usá-lo, nem na análise do capitalismo em geral, nem no estudo do que eles próprios são como parte do capitalismo, hoje dual, privado e de Estado. A esquerda é como a direita (quiçá um pouco mais corrupta) e a direita é como a esquerda (talvez um pouco mais néscia), ou que agora o PP está mostrando às claras, ao fazer uma política de esquerda. Do que se trata é de ter uma política revolucionária, de mudança integral da sociedade, do humano e do sistema de valores, contra a esquerda-direita. Isso é o que há que ir criando. Agora a esquerda está em desintegração, é o momento de ir pondo fim à sua existência para renovar radicalmente os conteúdos e formas da política, para expandir um grande movimento de recuperação do humano, reconstrução do sujeito, atenção ao espiritual, regeneração médio-ambiental e revolução integral. A ver se o logramos.

OP: A tua obra mais extensa tem um título muito explícito: La democracia y el triunfo del Estado. A ascensão do Estado é um impedimento para a democracia?
FR: Com efeito, no meu livro La democracia y el triunfo del Estado (editorial Manuscritos) exponho, e julgo também ter demonstrado, que quanto mais cresce o aparato estatal, mais mingua a liberdade para o povo e mais prospera o capitalismo. É uma mentira repugnante defendida pola esquerda que o Estado nos protege do capitalismo. A verdade fáctica é que o capitalismo é promovido, engordado, regularmente reconstruído e protegido do povo polo Estado. Porém, embora fosse assim, quem nos protegeria a nós do Estado? A esquerda é, pois, burguesia de Estado. As minhas análises indicam que mais ou menos 90% dos quadros do PCE-IU, assim como dos partidos “nacionalistas” de esquerda, vivem do Estado, medram com o seu crescimento e estão vitalmente interessados em que aquele tenha mais e mais poder sobre o povão, e o explore mais, pois desse modo terá mais fundos para repartir entre a burguesia de Estado de esquerda. Assim pois, a liberdade, a moralidade, o civismo, os valores da civilização, a vida comunitária e tudo o que nos faz seres humanos é triturado dia a dia polo Estado com o fim de criar seres tão dóceis, por desestruturados, que virem meras marionetas. Daí que seja anti-Estado, porque quero ser um ser humano integral que aspira à revolução e não um esquerdista de bolsos cheios, cérebro vazio, maquiavélico, egotista, cobiçoso, amoral e sem alma.

OP: Na atualidade, salvo pequenas exceções, o conjunto de partidos políticos demanda e é presa do desenvolvimentismo. É isto o que denominas sistema de partidos de partido único?
FR: Sim, a perceção popular de que todos os partidos “são iguais” é exata, com alguma pequena exceção que confirma a regra. Hoje o que existe é um sistema de partido único de partidos, um grande partido esquerda-direita no que estão integrados todos, cobrando do Estado ademais da banca. Note-se que quando chegam ao governo todos fazem o mesmo, o que prova que são um único e mesmo partido, da extrema direita e o PP à extrema esquerda e o gueto político, passando polo PSOE, PCE-IU e “nacionalistas” (espanholistas disfarçados que vivem e prosperam graças ao Estado espanhol dentro das autonomias). Desde o final do franquismo tem sido a política e ideologia da esquerda a que moldou a sociedade e a política em benefício do capital, constituindo o horror em que hoje estamos. Por isso a crítica da esquerda é fundamental, já que é o instrumento fulcral do capital desde polo menos 1975. Há que pôr fim a um tempo aziago e entrar numa fase política nova, na qual a noção de revolução integral substitua a de esquerda. Temos que fazer a revolução, apesar de e contra a esquerda, a direita e o pseudo-nacionalismo espanholista. A esquerda, espanhola e “nacionalista”, é o principal sustento e amparo do capital hoje, sendo portanto o inimigo fundamental da revolução anti-capitalista por fazer. Isso estamo-lo a comprovar todos os dias.

Texto d’O Peteiro, n.º 1. Sob licença Creative Commons BY-SA. Agradece-se citação da origem nos seguintes termos: “Artigo publicado originalmente na revista O Peteiro, n.º 1, abril de 2012. Acessível em: http://pt.calameo.com/read/00120331298bff7be2f6e

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