O futuro é rural

Xoán R. Doldán García é Presidente da Associação Véspera de Nada, Por uma Galiza sem petróleo

Mais da metade da população mundial vive em núcleos urbanos, perto de 20% do total em cidades que ultrapassam os 750 mil habitantes. Na Galiza quase 60% da população vive nas áreas urbanas das nossas sete cidades, chegando a mais de 70% a população que pode ser considerada urbana, embora o tamanho meio dos núcleos urbanos galegos não seja muito elevado. O fenómeno da urbanização expandiu-se gradualmente nas últimas décadas. No entanto, esta evolução só foi possível graças à disponibilidade de quantidades crescentes de energia abundante e barata, com um sistema energético baseado nos combustíveis fósseis e, em particular, no petróleo. Isto permitiu esconder o fantasma da carência de recursos locais como limitação ao crescimento demográfico e ao crescimento urbano, oferecendo em contraste a abundância dos comprados.

A posse de escravos mecânicos movidos por petróleo favoreceu uma agricultura que já não requeria de tantas pessoas para trabalharem a terra, ou mesmo que os alimentos ou outros recursos materiais e energéticos pudessem vir de qualquer parte do mundo, por muito afastada que estivesse. Deste modo, enquanto a queda da população ativa rural estava a produzir-se, o uso da energia exossomática para a obtenção de alimentos ia em aumento. Na Galiza, desde 1985 até hoje abandonaram a agricultura 350 mil pessoas (85% da população ativa na altura) e desapareceram dous terços das explorações.

O mundo rural esmoreceu, as explorações labregas foram convertidas em empresas agrícolas, a cultura rural foi substituída por uma extensão dos valores urbanos, os espaços periurbanos transformaram-se em arremedos das antigas aldeias, onde a morrinha polo paraíso rural perdido faz agromar um negócio imobiliário que recria os antigos campos mediante jardins à moda urbana, e as antigas casas de labrança em chalés, contribuindo a acelerar o desaparecimento do rural, ao estabelecer uma hierarquia dos territórios em função das necessidades e da rendibilidade promovida desde o mundo urbano, onde as comunidades rurais são substituídas por urbanizações.

O processo de descomposição e recomposição de áreas rurais veio também da mão do turismo rural sazonal ou de fim-de-semana, que pretende recuperar para os moradores das cidades o contato com a natureza e com as velhas tradições da cultura labrega. No entanto, a vida rural vira apenas para uma representação do que foi para se tornar lugar de lazer e descanso, ao passo que perde a função tradicional de lugar de trabalho e comunidade. Produtores e consumidores de alimentos passam a constituir categorias nitidamente diferenciadas, mediando entre elas uma vasta rede de indústrias e distribuidores que precisa de grandes quantidades de energia para ligarem entre si, o que vai dar no absurdo de se empregar muita mais energia nisto do que os próprios alimentos contêm.

Manter este sistema no futuro vai ser impossível, considerando que estamos numa confluência de teitos constatados de extração do petróleo, iminentes para o gás natural e muito prováveis em poucos anos para o carvão, sem que haja nenhuma outra fonte que possa oferecer de forma tão rápida, abundante, barata, concentrada e flexível a potência energética de que, até agora, dispusemos. Qualquer aumento da demanda energética numa parte do planeta daqui para a frente terá que ser à custa de uma redução forçada noutra parte e, em qualquer o caso, a preços muito mais altos. Nestas condições, o crescimento económico só será factível em determinados lugares e por certo tempo, o que leva ao fim do modelo universalizável que o capitalismo tentou vender.

Além disso, essa impossibilidade de crescimento universal põe fim à ideia de uma globalização sem limites onde o trinómio população-território-recursos não tinha por que andar de mãos dadas e onde as limitações não são mais financeiras do que materiais ou espaciais. Com combustíveis cada vez mais caros e com uma oferta cada vez mais limitada, o transporte mundial de materiais, energia, alimentos e outras mercadorias pode cair numa armadilha energética e colapsar. Se for assim, a este colapso seguir-lhe-ão outros, incluído o do sistema alimentário atual. Logo, o futuro poderá seguir sendo urbano?

Dificilmente. Os primeiros em constatá-lo serão aqueles lugares com maior concentração urbana, menor produção local de alimentos e com agriculturas intensivas no uso de energia fóssil. Como abastecer a demanda básica de alimentos lá onde há produção graças à importação de petróleo e agroquímicos?

Re-ruralizar e re-agrarizar o mundo já não é uma opção, mas apenas algo inevitável. E fazê-lo suporá mudanças noutros muitos âmbitos. Os prazos, porém, jogam na nossa contra. O debate deveria ser em como fazer o processo de transição e em como investir o tempo de que dispomos, de maneira a os labregos aumentarem a sua resilência em tempos de escassez e a volatilidade dos preços. Neste contexto, e à margem da dificuldade da mudança de modelo, cumpre considerar qual sistema alimentário, não baseado em energias fósseis, precisamos para, uma vez concluída a transição, podermos fornecer de alimentos à população mundial e, enquanto isto não acontecer, como resolver o descenso na disponibilidade de combustíveis para realizar as diferentes tarefas de produção e distribuição dos alimentos.

O repto não é fácil e obriga a reconsiderarmos tudo: mudarmos as expectativas dos produtores atuais; achegarmos a produção agrícola a sistemas naturais regenerativos da fertilidade da terra, assim como de controlo de pragas; procurarmos o autosubministro energético com base nas renováveis; promovermos a produção local e as redes de comércio local de produtos alimentários; procurarmos mudanças na dieta alimentária, favorecer as pequenas explorações e a autoprodução agrícola, etc..

Porém, todas estas mudanças se não forem implementadas com a participação da população labrega e do conjunto da sociedade, serão causa de grandes desajustes, mesmo entre os produtores atuais de alimentos. Por isso, é desejável que façam parte de uma transformação social e económica global, com o objetivo de mudar esta sociedade hiperurbana para um modelo em que o rural não só predomine como também sirva como eixo vertebral. Sem dúvida, o futuro é rural, e os nossos esforços devem ir encaminhados a o construir e a o fazer possível.

Texto d’O Peteiro, n.º 1. Sob licença Creative Commons BY-SA. Agradece-se citação da origem nos seguintes termos: “Artigo publicado originalmente na revista O Peteiro, n.º 1, abril de 2012. Acessível em: http://pt.calameo.com/read/00120331298bff7be2f6e

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