Desenhados para a pré-história

Jesus R. Requena é bioquímico e pesquisador na área da medicina molecular

Afirma o antropólogo José Luís Arsuaga, famoso polas suas descobertas paleontológicas em Atapuerca, no coração da Península Ibérica, que “os seres humanos estamos desenhados para morarmos na Pré-história”. Isto é, os nossos genes, a nossa biologia, estão adatados a umas condições ambientais que já não existem.

A espécie humana, o Homo sapiens, apareceu no planeta Terra há uns 150.000 anos. Aqueles homens e mulheres eram fisicamente idênticos a nós; se uma daquelas raparigas pudesse ser trazida á nossa época, adotada por uma família de Vigo ou Betanços, desenvolver-se-ia como qualquer outra nena da nossa época. Iria á escola, onde destacaria nas matemáticas ou no inglês; gostaria de video-jogos e de comer lambetadas. Uma rapariga como outra qualquer. Porque nos últimos cento e cinquenta mil anos os nossos genes, a nossa constituição biológica, praticamente não mudou. Isto é assim porque a evolução é um processo extraordinariamente lento.

Por exemplo, uns dous milhões de anos são os que nos separam dos nossos antepassados australopitecus. Durante esses dous milhões de anos, os genes dos australopitecus foram mudando lentamente. Muito pouco, apenas o um por cento de mudança, mais ou menos. Enquanto isso acontecia, a seleção natural foi escolhendo aquelas mudanças que, por definição, permitiam ser seleccionadas, isto é, as que conferiam uma vantagem reprodutiva aos seus portadores.

Daquela, uma mudança genética que proporcionasse maior massa muscular, mais força, não seria má, pois proporciona uma vantagem na caça e na luta… mas também faz necessário comer mais para manter o corpo. Aliás, uma mudança que aumentasse a capacidade de comunicação, de pensamento abstracto, esse que permite imaginar o que vai a acontecer se um faz uma cousa ou uma outra, seria ainda melhor. Assim foi que os australopitecus se foram transformando aos poucos em Homo habilis, e os membros desta espécie, em nós.

Que aconteceu desde que apareceram os primeiros homens e mulheres da nossa espécie, há 150 mil anos? Seguimos a evoluir, disso ninguém duvida; mas apenas houve tempo para nada. Ora, o que aconteceu com o nosso contorno? Durante os primeiros 140.000 anos, praticamente nada.

Houve períodos glaciais, períodos de seca, alterações na fauna e na flora… mas nós fomo-nos acomodando a isso, viajando, fugindo do frio, detrás da caça, ficando em zonas ricas em frutos silvestres e raízes nutritivas. Mas o ambiente sempre era, essencialmente, similar: chairas, montes, fragas, rios, animais selvagens…

No entanto, há uns dez mil anos, aconteceu algo radicalmente novo. Umas mulheres observaram que dalguns grãos que sobraram e depois ficaram húmidos, nasciam as mesmas plantas que dão os grãos. Aos poucos, foram aprendendo a enterrar esses grãozinhos, e, ao voltarem ao lugar onde os enterraram, no percurso das suas viagens de nómades, recolher novos grãos. Assim nasceu a agricultura.

Os caçadores-coletores viraram sedentários em alguns lugares do planeta. E em apenas dous ou três mil anos, o contorno dessas gentes mudou mais do que nos 140.000 anos anteriores. A natureza converteu-se em paisagem; os animais selvagens, em gado. As choupanas de peles e ramalhos que se desfazem e não deixam rasto, em aldeias fixas de tijolo… Dalí à grande cidade, às estradas, às fábricas, às centrais nucleares e à Rede. Tudo aconteceu com uma velocidade de vertigem. E era completamente inevitável.

Porque o paradoxo é que as capacidades intelectuais e de comunicação que fizeram do Homo sapiens uma espécie formidável, capaz de caçar em grupo, de fabricar ferramentas com as que prolongar os seus braços e multiplicar a sua força, de comunicar os lugares onde há mais alimento e melhor água, em definitiva, de serem quiçá a espécie animal melhor adaptada e com maiores possibilidades de sobreviver por toda a face da Terra, não podem ser utilizadas apenas numa direção. Não podem ser limitadas à caça, à coleção de raízes e à comunicação onde se acham as melhores fontes. Logo serão utilizadas para observar como cultivar grão, ou modificar geneticamente o milho; para polir a pedra ou fabricar mísseis.

E assim foi que transformamos o nosso contorno de um jeito que o faz completamente irreconhecível, enquanto que a nossa biologia apenas mudou. Somos a rapariga trazida da Pré-história a Vigo ou Betanços, com cérebros otimizados pola seleção natural para caçar e coletar em grupo, para compartilhar a nossa vida com um pequeno grupo de vinte ou trinta pessoas, a maioria delas parentes, das que dependemos para sobreviver, que ajudam todas a encontrar a comida, a cuidar as crianças e os velhos, a transmitir a sabedoria do grupo. Quando nos encontramos com um clã vizinho, se for preciso, lutamos para defender a nossa sobrevivência. Pode ser que morram um ou dous, mas a violência é sempre limitada.

Agora temos bombas atómicas, embora o nosso controlo da violência não tenha mudado. Como não mudou a nossa ânsia por comer cousas doces, mesmo que com uma visita ao supermercado podemos engolir uma quantidade de açúcares que na Pré-história apenas poderíamos conseguir comendo quilos de amoras, que teriam de ser apanhadas numa longa caminhada.

O genocídio, a obesidade, a desigualdade social, a destruição do planeta, a prostituição, as adições de todo o tipo, a depressão, … são apenas manifestações da discordância ente os nossos genes e o entorno que criamos nos últimos dez milénios, apenas uns segundos na escala do tempo planetário.

O que podemos fazer?
Se calhar, o primeiro é refletir sobre a natureza da nossa disjunção. Vermo-nos como o que somos: Tarzã em Nova Iorque. Depois, pensar em como fazer para que essa disjunção não venha a nos destruir, como os dinossauros, para que no futuro nenhum paleontólogo extra-terrestre possa dizer “os chimpanzés seguiram uma estratégia evolutiva conservadora mais ajeitada que a dos humanos, que dominaram a Terra temporalmente e depois se auto-destruíram.

Texto d’O Peteiro, n.º 1. Sob licença Creative Commons BY-SA. Agradece-se citação da origem nos seguintes termos: “Artigo publicado originalmente na revista O Peteiro, n.º 1, abril de 2012. Acessível em: http://pt.calameo.com/read/00120331298bff7be2f6e

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