Maria Dovigo: «o crescimento da cidade foi convertendo em bairros as aldeias dos meus antepassados»

Maria Dovigo nasceu na Crunha em 1972 e vive desde 2000 em Portugal. É filógoga de formação e escritora de vocação. Nesse lavor criativo liga a sua vontade de intervenção cívica com a sua convição de que a criação é a verdadeira natureza do ser humano. Colabora com diferentes associações de uma e outra banda do Minho, tecendo redes de afetos e projetos à volta da vivência da língua comum.

Por quê o Partido da Terra?

Cresci no bairro da Agra do Orçã, na Crunha, entre a omnipresença das chaminés da refinaria, os variados cheiros do polígono industrial da Agrela, e a fugida a esse mar que fez a cidade, a cidade construída como um barco, como dizia Outeiro Pedraio, para resistir ventos e marés, com esse recendo profundo a sal e vida. Durante anos, toda a minha infância e adolescência, esse foi o meu espaço vital. Não tive aldeia, como era habitual nos meninhos da minha idade, porque o crescimento da cidade foi convertendo em bairros as aldeias dos meus antepassados. Mas quiçá essas vivências foram criando em mim a consciência de como tudo está ligado: a economia, a maneira de habitar o território, uma certa ideia do homem (e da mulher), isso que se vem chamando “natureza” e tudo aquilo que se mete no saco da “cultura”, que será maior ou menor consoante a nossa própria ideia da dimensão da vida das criaturas e da dignidade do ser humano. O bairro em que me criei pode ser um exemplo de como habita um território quem está reduzido a força de trabalho. Se tive uma causa constante na minha vida desde criança foi o amor à natureza, as praias, o mar que tem tantas formas, os pinheiros, o vento que tantos sons tem na terra do Faro… Mas um amor feito também da consciência da nossa capacidade para destruir o nosso espaço, toda essa beleza que luta por se manter viva, também dentro de nós. Espero do PT essa visão integradora da vida, sabendo que o poder sempre se alimentou de dividir e o amor de ligar. Creio na empresa coletiva. Há trabalhos que não se fazem solitariamente. É muito o que nos une e a mim entusiasma-me esse encontro para construirmos este país que sempre parece estar a recomeçar. O PT é como esse cruzeiro-anta que tocamos para nos reunirmos e sentirmos a comunidade, não só dos que agora somos, mas dos que já foram e, esperemos, serão.

És filóloga. Como entra a questão da língua nestas ligações?

Puxando do fio, fui formando a ideia de que num país como o nosso a natureza e a cultura não são espaços ou momentos de evasão, mas o próprio cerne da História. Combato qualquer forma de domínio, de poder que se serve “naturalmente” da violência e da destruição para imperar. Calhou-me nascer num país onde a falta de soberania nos impede já não só viver segundo os nossos valores, mas, simplesmente, conhecê-los. Este sequestro da consciência de sermos quem somos dói-me profundamente, e não mudou com a restauração bourbónica. Longe disso, o poder tem meios para se propagar mais potentes dos que nunca teve. Eu, sendo mocinha, comecei a percorrer o país fisicamente, um país que desconhecia completamente. E descobri uma Galiza infinita, no tempo e no espaço. Seguindo aquela famosa citação de Risco, aquela terra que se me foi descobrindo sem pudor à minha frente, enquanto começava a ler os seus escritores e partilhar os sonhos que ousaram ter para esse país que eu começava a amar com paixão, fez-me crescer e tomar algumas decisões que me marcariam para sempre. A primeira, falar a língua dos meus pais. Não fazia sentido que na minha casa, na mesma cidade em que toda a minha família nasceu, falássemos duas línguas. O demais foi um continuar a tecer ligações. Foi o começo de uma viagem na que ainda estou embarcada.

Essa viagem tornou-se uma viagem real. Foste da Terra de Faro, ao norte da Galiza, para o distrito de Faro, no sul de Portugal. Por quê?

Seguindo os caminhos da vida, vim parar ao Algarve por amor. Não me custou nada sair do meu país. Creio que nunca tomei de maneira completamente consciente essa decisão. Afinal, como qualquer galega, tenho família por meio mundo. Viver fora do país não estava fora das minhas expectativas vitais. Custou-me é recomeçar a minha vida cá. O choque foi muito maior do que eu nunca teria imaginado. Faltava-me tudo: a família, os amigos, o mar, as árvores… Até me custou habituar-me a este sol do Algarve. Todos os dias o mesmo céu azul por trás da janela! Quantas saudades da chuva e do vento, das vozes da terra! Mas o mais doloroso foi não ter com quem partilhar os sonhos, a rede de afetos e causas que com tanta naturalidade vivi na Galiza. Com muita dor aprendi que essa Galiza que eu tanto amava não era a que tinha deixado para trás. Era a Galiza sonhada, a Galiza que desejamos e pela que lutamos, agora nós, noutro tempo a gente das Irmandades da Fala ou as da Cova Céltica, a das comunidades galegas no exílio que reinventaram o país. Aprendi-o com dor quando me percebi de que algo me impedia voltar à Galiza de hoje. Agora compreendo muito melhor porque a diáspora foi tão importante nos rumos da nossa história. Pergunto-me é, com o peso desta herança, o que é que os filhos da diáspora atual podemos fazer pelo país. Porque o desejo de voltar sempre está presente. Mas não posso voltar de mãos vazias. Espero poder responder daqui a uns anos.

O que é que pode fazer uma galega em Portugal na atualidade?

No início, como acontece a muitos galegos, chocou-me o desconhecimento que há em Portugal relativamente à história e à língua da Galiza. Doeu-me, até, mais do que “não saber”, que sempre tem arranjo, o “não querer saber”. Tento sempre ir mais além e apurar os porquês, que os há. E mais, apesar de tudo, tenho de reconhecer que viver em Portugal deu-me liberdade. Para já, para descobrir a Galiza sem ter de estar a negociar diariamente o que eu nem considero direito: falar a minha língua sempre e em todo o momento e que a língua não divida nem frature. Depois, não desisto do meu lavor de pedagogia dentro de Portugal, para proclamar que a grande notícia não é que haja galegos que falem em castelhano, mas que, apesar de tudo o que nos caiu encima, apesar de todas as vagas de extermínio e aniquilação que sofremos, ainda estamos vivos. Vivos e esperançados. Essa é a grande notícia: que o poder nem tudo pode quando o amor resiste. O professor Rodrigues Lapa era capaz de ter razão nisso da teimosia dos galegos. Agora quero é poder viver na Galiza e em Portugal ao mesmo tempo, demonstrar que a fronteira que os reis criaram no Minho não só nos limita a nós, também a eles. Sem a Galiza, sempre lhes faltaram chaves para se conhecerem a eles próprios. Nasci na cidade do farol desde a que começou a aventura de Irlanda. Com esse dote mítico, até a empresa dos descobrimentos tem uma interpretação diferente à da historiografia portuguesa oficial.

Porque essa estratégia lusófona para a Galiza?

Uma das dicotomias que mais reduzem o nosso entendimento da vida é essa que diz que há o universal e o particular (ou o local). Creio que a Geração Nós soube ver isso quando foi com o seu lema “Galiza, célula de universalidade” a atacar o mesmo centro desse pensamento. Conhecer a fonte matricial da língua e, ao mesmo tempo, como essa língua é comum a outras culturas, é um privilégio que os galegos temos e cuja consciência nos é negada. Por desgraça, mais uma vez nesta história que ainda não mudou de rumo, é mais fácil ser galego fora da Galiza do que dentro.

No momento atual de construção da cidadania lusófona, a Galiza tem de estar presente. Está tudo por decidir e fazer, mesmo na questão da língua, mesmo nos seus aspetos mais formais, já nem falemos nos políticos, neste espaço ainda em grande medida utópico que é a lusofonia. Essa “fratria” do ideal de Agostinho da Silva, grande conhecedor da Galiza, ainda é matéria de sonho. A experiência histórica da Galiza, o próprio Agostinho deixou escrito, é muito valiosa dentro da comunidade lusófona. A Galiza pode ter um papel mediador neste espaço em construção. Pelo conhecimento que temos da hispanofonia, podemos pensar que a lusofonia é um equivalente “em português”. Entre a história de Espanha e a de Portugal pode haver muitas semelhanças, mas semelhança não é igualdade. Já não é só as evidentes diferenças entre o império espanhol e o português. É a relação dos demais países lusófonos com a língua portuguesa, tão diferente da América hispanófona, que nós também conhecemos não através dos livros mas da nossa memória familiar, pela experiência da emigração. É só ver o exemplo de Timor para ter consciência dessa nova cidadania intercontinental que tem o seu elo de ligação na língua como instrumento de comunicação entre povos bem diferentes e afastados. A mim parece-me uma vivência da língua única a que se nos oferece aos galegos, e uma fraude violenta e mesquinha que desde o poder (Junta e todo o seu complexo dito cultural-académico, verdadeiro vice-reinado da restauração bourbónica) promove esta versão redutora, folclorizante no pior sentido da palavra, deformante… “esperpéntica” mesmo. Eu quero uma Galiza culta e dona dos seus destinos, ciente dela própria, “desperta”, como dizia Pondal, para poder estar em pé de igualdade com os seus pares lusófonos.

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