Joám Evans Pim: «Não há lugar para os partidos na democracia direta»

Joám Evans Pim é Secretário Geral do Partido da Terra. Galego por parte de mãe e irlandês/inglês por parte de pai, criou-se em Rianxo e dirige um centro de pesquisa no Havai.

Evans Pim, de onde saem esses sobrenomes?

Evans é galês. Os antepassados de meu avô foram trabalhar na Inglaterra como mineiros. Minha avó era irlandesa, de Baile Roibín, uma aldeia da paróquia de Cill Scíre (An Mhí). Pim é sobrenome galego, dos vales do alto Eu e das Terras de Burão.

Como acabaste de diretor duma organização sediada no Havai?

Em 2006, procurando leituras para o doutorado, achei um livro do fundador desse centro, em que se defendia a visão de uma sociedade não dependente do uso da letalidade e da ameaça de usa-la. Comecei a colaborar, de forma cada vez mais intensa e hoje, desde a Galiza, coordeno todos os programas com o apoio de uma rede extensa de pessoas voluntárias.

Por família e por trabalho tens morado e trabalhado em distintas partes do mundo. É certo que o nacionalismo se cura viajando?

Não acho que o nacionalismo seja uma patologia. Conhecer e viver com outras pessoas faz-nos aprender humildade em sentido crítico com nós próprios. Mas é a engrenagem aculturadora promovida desde o Estado, hábil combinação de cosmopolitismo e chauvinismo consumocéntricos, com o objectivo de quebrar as raízes e as origens das pessoas, a que as converte em seres patológicos, sem outro fim que produzir e consumir. Dito isso, não acho que o nacionalismo estatalista (uma nação, um estado), tenha feito nada de bom pola preservação da comunidade nacional galega. A sua agenda desenvolvimentista, industrialista, bem-estarista e estatolátrica tem contribuído e continua a pular pola sua completa aniquilação. Talvez seja a minha deformação como antropólogo, mas sempre percebi o galeguismo tradicional como algo mais próximo a um indigenismo “daquela maneira” do que ao nacionalismo estatalista.

Esquerda ou direita?

Os dous formam parte da concepção parlamentar da política. Na visão assemblear da democracia direta somos as pessoas as que deliberamos e decidimos sobre cada questão em particular. A experiência vital ou a bagagem de ideias de cada pessoa podem fazer com que optemos por certas posturas e não por outras, mas a rigidez e a ortodoxia próprias da partitocracia carecem de sentido no contexto da assembleia, mesmo porque não são prescritivas em relação à imensa maioria dos problemas que poderiam surgir, por exemplo, num concelho aberto paroquial ou de bairro, onde, a longo prazo, é mais adequada a lógica de procurar o máximo consenso.

Como chegaste ao PT?

Militei no independentismo dos 16 aos 20 anos, altura na que achei não querer saber mais nada de partidos. Em 2012 votei por primeira vez e com os dedos cruzados, ainda que isso não fez que fosse sem remorso. Não acredito no teatro da “democracia” que representa a atual ditadura e só posso dar a razão aos que criticam o PT (e a gente que vota ou se candidata em geral) por legitimar, em certo modo, o penoso espectáculo. O PT criou-se por cansaço e para poder dispor de um instrumento com o qual promover um conceito de democracia e de política coerentes com o significado originário dos termos e com a tradição da nossa terra.

Mas um partido é o instrumento certo?

Com a abstenção apenas, mesmo que seja ativa, não conseguimos (por enquanto) deslegitimar a política profissional. Deslegitimar a “política” e os “políticos” profissionais é uma estratégia essencial para a recuperação da soberania e a nossa condição de pessoas políticas. O PT assume essa estratégia de deslegitimação como uma constante, uma “guerrilha política” (não violenta, é claro) se se quer ver assim. A criação de zonas autónomas com aspiração de permanência onde as fissuras do sistema o permitam, como assembleias paroquiais ou de bairro com a máxima soberania possível, não é utópico. Existindo a vontade é algo que pode ser feito em qualquer município, desprofissionalizando e “desestatalizando” de facto estas estruturas. Acho que o desejo das pessoas que estamos no PT é que este possa ser dissolvido no prazo mais breve possível, pois não há lugar para os partidos na democracia direta e todos temos, com certeza, outras paixões na vida.

E quais são as tuas?

Antes de que sejamos mais na família gostaria de levar um pouco mais longe o conceito de exploração de subsistência, tentar procurar soluções comunitárias para a energia e não deixar morrer o conhecimento tradicional que está à nossa volta, esmorecente. Também levamos alguns anos experimentando com vinhos e cervejas orgânicas, agora com o nosso próprio lúpulo. Com algo mais de empenho até poderiam fazer-se caminho fora da aldeia… até a taverna da paróquia, por exemplo!

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