Iolanda Mato: «Na minha aldeia existe mancomunidade: as vizinhas sabem o que é reunirem-se e decidir em assembleia sobre o que lhes importa»

Iolanda Mato Creo tem 28 anos e nasceu em Frojã (Terra de Tambre), aldeia que como muitas outras na velha Gallaecia mantém suas raízes germânicas não apenas no nome (Fraujland, terra de Fraujaz), mas na sua tradição assemblear e propriedade comunal. Tradutora de formação, forma parte do Conselho Executivo do PT e foi candidata comarcal polo Barbança nas eleições de outubro de 2012.

De profissão tradutora… Como está o mundo editorial na Galiza?

O mundo editorial galego em galego é muito dependente do poder político por causa das “ajudinhas” que os diferentes governos foram estabelecendo. Poucas empresas têm uma atividade que se possa chamar sustentável, isto é, independente do subsídio governamental. Por isso, há que diferenciar entre as editoras “comerciais” e as “não comerciais”, ou mais rigorosamente, as para-estatais e as independentes. Enquanto nas primeiras prima a edição de títulos, mesmo que não se vendam, para optar ao maior número de subsídios possíveis; nas segundas atende-se à demanda de um público reduzido mas real, disposto a pagar o valor real do produto (curiosamente, por vezes inferior aos preços das editoras para-estatais ao tratar-se de iniciativas não comerciais). A isto acrescenta-se o problema de existir apenas um reduzido número de editoras com uma visão da língua extensa e útil, como oportunidade de expansão do seu mercado, sendo frequentemente a lógica do subsídio (que obriga a utilizar normas isolacionistas) o que mata as possibilidades de expansão real da literatura galega. Ou o mundo editorial galego consegue criar e viver dum mercado próprio independente do Estado, ou paulatinamente irá desaparecendo até ficar em puro folclorismo. A mudança de paradigma (também linguístico) é uma questão de sobrevivência.

Desde a tua experiência como docente universitária no âmbito da tradução, como vês o ensino superior nesta altura?

Neste momento a universidade está em crise. O pilar em que se sistema é o monopólio dos títulos oficiais para conseguir determinados trabalhos e ascender socialmente. Porém, hoje em dia uma pessoa que tenha interesse numa matéria pode por si própria e com bastante facilidade aceder a um mundo de recursos para aprofundar nela. Contrariamente, o papel tradicional de divulgação do saber existente está a ser realizado cada vez de forma menos eficaz. Quer dizer: hoje as formas não tradicionais de aceso ao conhecimento e aprendizagem são realmente as que permitem capacitar as pessoas para enfrentarem os desafios do nosso mundo.

Ainda, o atual sistema educativo, faz com que os moços e moças estejam cada vez mais infantilizados. Chegam ao último ano de estudos e não têm inquietude por nada, nem perguntas que não sejam o que entra exatamente no exame. Por norma, quere-se tudo feito e mastigado, e assim se demanda.

Gostas muito da tua aldeia e gostarias de poder fazer lá a tua vida, não é?

Em realidade nunca deixei de ter um pé na aldeia, pois é o lugar no que melhor me sinto, onde mora a minha família e a gente com a que cresci. Pesa-me muito estar longe dela boa parte do ano por trabalho. Cada vez resulta mais evidente que trabalhar por conta alheia, pagar aluguer, comprar produtos ruins que poderia produzir eu mesma, morar num prédio onde nem se quem são os vizinhos, … simplesmente não compensa. Esse modo de vida faz que (e está pensado para) que, ao acabar o mês fiques a pré. Por isso voltar à aldeia de jeito permanente é algo para ir preparando desde já.

Os parentes duma nunca vão ir para novos e quero (junto com a minha irmã) poder tomar conta deles quando for necessário, pois também eles cuidaram e continuam a cuidar de nós. Também não quero criar os meus filhos numa cidade nem ver-me obrigada a deixá-los em mãos de desconhecidos que se ocupem da sua educação por depender do trabalho assalariado. Melhor renunciar aos objetos de desejo do modo de vida urbano e viver com dignidade no rural do que continuar escravas do Estado. Quero ser eu e os meus a criar dos filhos no ambiente em que cresci, com os avós (e aguardo que com também com a bisavó). Acho que há muitas possibilidades na aldeia e muito a ganhar, não só no plano pessoal, mas no desenvolvimento de empresas (no sentido amplo) comunitárias. Na minha aldeia existe mancomunidade: as vizinhas sabem o que é reunirem-se e decidir em assembleia sobre o que lhes importa.

Passaste de coordenadora comarcal da Mesa pola Normalización Lingüística a ativista reintegracionista. O quê aconteceu?

Como muita gente ativa na defesa da língua afiliei-me à Mesa e ajudei a constituir um grupo comarcal na Terra do Barbança, do que fui coordenadora. Durante um período de 3 ou 4 anos tivemos bastante atividade lá e um núcleo de pessoas muito ativas.

O principal papel da associação era o de funcionar como grupo de pressão política em favor de medidas legislativas pró-galego e do grupo político que as colocava em andamento ou as iria pôr. Isto significava, entre outras cousas, que o que fizessem esses políticos, bem feito estava e tinha de ser apoiado, mesmo nem sempre sendo assim.

Mais tarde foi-se somando a questão ortográfica. A adesão da Mesa à “normativa da concórdia” acarretou muitos benefícios para a entidade no plano do acesso a recursos públicos, com orçamentos anuais autênticamente colossais nos anos de bonança económica, coincidentes em parte com o bipartito. Mas o dinheiro não serviu para nenhum avanço político nem sociolinguístico. A escolha ortográfica explícita, numa associação com numerosas pessoas a apoiarem a unidade da língua, penso que foi um erro. Foi um erro/engano institucional em 1981 e foi um erro da Mesa a meados dos 2000.

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