Higino Martins: «Desvendar o passado, não para ficar nele, senão para basear-se nele e sair para o futuro possível»

Higino Martins nasceu em Buenos Aires de pais galegos em 1941. Viveu oito meses na Galiza do ano 1947. Foi advogado e professor na Universidad del Salvador, sendo reconhecido polo seu trabalho de ensino e divulgação da língua entre a diáspora portenha. Fundador da Associação de Amigos do Idioma Galego da Argentina, do Instituto Galego de Estudos Célticos e da Academia Galega da Língua Portuguesa, foi candidato peteiro polas comunidades galegas da América nas eleições ao Parlamento da Galiza de 2012.

Como se vive ter nascido galego na diáspora?

Nos anos primeiros foi um caminho ao centro, o febril percorrer um labirinto. Recebera tradições, sobretudo de minha mãe, criada no ambiente rural e vinda antes do ’36, mas isso não chegava. Faltava e falta a elaboração da consciência coletiva, baseada no vasto inconsciente que a história depositou. Nascer em país de língua castelhana põe regras e pede decidir várias questões identitárias, e a sua coexistência. A identidade nos americanos é sempre cousa urgente. Acelerei o processo mercê de uma viagem de oito meses à Terra em 1947, primeira experiência de mar, do campo e dos usos velhos ainda subsistentes. Antes e depois surgia a dialética da América castelhana perante a portuguesa, com urgente estranhamento. E o repto da semelhança da língua do Brasil com a galega. Eram muitas perguntas, evidentes e sem respostas instituídas, um sarilho de sucessivos códigos invisíveis a governar o cenário, inextricavelmente entremeados.
É paradoxo a América castelhana guardar, no nível linguístico, o legado espanhol do século XVII – de agudo opróbrio ao galego, e a par decerto atenuado pelo rechaço ao godo e o nítido surgir do poder brasileiro – e ao mesmo tempo, no Plata, o sangue galego ser o terço dos 40 milhões da população atual. Apesar de sumido na inconsciência, dela surgem abundantes renovos, que talvez se multiplicariam se Galiza atinar a acordar.

Qual seria o papel do celtismo na compreensão da Galiza histórica e da atual?

Uma árvore não vive sem raízes. Se lhas talham, morre e cai. Se o povo galego segue sem saber donde vem, será o que é, mas de jeito imperfeito, fácil de diluir no magma do contexto, quer dizer, acabará perdendo a língua. Não saberá o que é, e a identidade – repito – não é só o que se percebe, também é o mais vasto campo inconsciente, o inconsciente coletivo, que não é genetico, que é linguístico. A língua é a psique da sociedade, com uma consciência óbvia, que são as falas (as realizações concretas do sistema linguístico), figuradas na gramática e no léxico. É também um vasto inconsciente do que apenas pegamos a pisar o limiar, que é algo orgânico, cheio de estruturas vivas, como as sintáticas profundas que Chomsky desvendou, e as semânticas fundas ou arquétipos, às que se assomou Dumézil. Este mostrou o junguiano inconsciente coletivo ter seu assento não na genética mas na língua.
Nomeadamente na Galiza, mil anos de coexistência de céltico e latim deram no românico ocidental, híbrido consolidado que integra o legado latino (vivo no direito público e privado, na organização social, que é o jeito civilizado de conviver) com o misterioso (por inconsciente) legado céltico, que ciclicamente ressurge na Europa, o que vem roborar o seu valor e poder: a matéria de Bretanha, o amor cortês, a epopeia burguesa que é o romance, o romantismo, Asterix e a fantasia heroica. A herança céltica na Galiza vive no léxico daí vindo, inúmero e em constante desvendar, que se revela na extraordinária toponímia maior, que faz recuar mil anos a nossa proto-história, e que nos pasma com as suas revelações acerca da epopeia, da religião e da mitologia, revelações que muitas vezes são mais precisas do que o são mesmo na tradição irlandesa, que não perdera o fio condutor da língua. É matéria longuíssima, mas chega esta cifra: sem raízes não há vida.

Se o legado céltico faz parte da língua que nos dá identidade, a língua é o vaso a proteger. Qual o futuro da língua?

Há muito que sabemos que a língua dos galegos é uma língua universal, na Galiza nascida e hoje falada em estados de cinco continentes. Mas sabemo-lo com a cabeça e por momentos, quando caímos na conta, defrontados com a triste situação em que a história nos encurralou. Triste hoje na península, trágica ontem – como os americanos ainda percebemos –. A sensação de derrota não é outro que o fruto apodrecido do processo histórico global em que estamos inseridos. Mas não nos enganemos, é somente um momento, uma conjuntura no tempo que a curta vida humana tem dificuldades para visualizar no contexto. Mesmo a realidade cativa do Portugal presente faz parte dessa conjuntura.
A termos desportivos, é momento de levantar a cabeça e mirar arredor, de não perder a visão do conjunto do jogo. Futebol e xadrez. Xadrez para adiantar-se nos movimentos, para os quais há um caminho prefixado que inda não se fez evidente. Quando lograrmos essa perspetiva, teremos ganhada a partida, saberemos com todo o corpo que a Galiza é berço eterno duma língua universal. O giro copernicano da descoberta é tão pasmoso que talvez devamos prepararmo-nos já para não perder equilíbrio e cairmos nas tentações injustas e estúpidas dos impérios desenvolvidos. Mas isso é adiantar-se muito, que ainda temos de trabalhar muito para despertar os adormecidos e pô-los a esforçar-se, pormo-nos a esforçar-nos. E esforço não é tormento, é descobrir encantados a felicidade que dá a criatividade, essa maravilha à que todos os humanos estamos convocados.
A língua que nasceu na Galiza está chamada a ser uma das poucas que durarão no mundo e florescerão, certamente produzindo, num futuro misterioso, muitos renovos que não podemos imaginar. Mas já chega disto, que parece profetar.

Por que o Partido da Terra?

A longa marcha na elaboração dum projeto e programa político para a Terra Galega não teve continuidade institucional. Não é para descorçoar-se; foram passos insuficientes mas necessários. Cada desfeita é experiência, por isso valiosa. O único perigo, e temor, é a perda do tempo implicada. A meu ver chegou o momento de pôr-se a organizar o instrumento eficaz que ainda não se tinha produzido.
O Partido da Terra tem de ser esse instrumento, apesar da apatia geral. A realidade impõe o rumo. O PT deve escolher um caminho na selva das ideias possíveis. Ainda bem, o tempo atual dissipou muitas dúvidas que há pouco ainda podiam fazer hesitar. O horizonte em alvor parece fazer-se cada vez mais óbvio. Os males a corrigir fizeram-se tão claros que poucos amantes da ordem instituída atinam a arborar defesas persuasivas. Certo que novos desafios nos aguardam e deveremos ser astutos e argutos, sem perder a difícil inocência.
Ecologia, democracia direta, sereno e harmónico equilíbrio nos objetivos vitais. Desvendar o passado, não para ficar nele, senão para basear-se nele e sair para o futuro possível. Há tanto aqui já desvendado que seria abusivo tentar sintetizar o panorama neste momento, sobretudo eu que só sou um observador comprometido.

Qual pode ser o papel da diáspora galega nestes momentos? E que há dela na Argentina?

Foi basilar e não sei se continuará a ser. É tópico o papel da diáspora na tomada de consciência galega. Apenas os que tomaram distância acordaram e viram a sua identidade. Isso é certo e verificável em cada um dos casos notórios. Ora bem, a tomada de consciência é apenas o primeiro passo na regeneração da pátria. Quando o conjunto da Lusofonia participar dessa tomada de consciência, começar a participar, penso que se estará a dar o passo seguinte. Por aí vamos.
Quanto à diáspora na Argentina, morre uma etapa, a dos imigrantes, que poucos restam. A vida societária, que foi às vezes intensa, outras vezes patética, já é uma sombra, com edifícios, alguns arquivos, uns livros, rastos cada vez mais fantasmais. O seu valor crescerá em progressão geométrica, como acontece com todo o que ruiu e de pronto vira em antiguidade maravilhosa de preço disparado.
Como disse antes, hoje a diáspora viva é esse terço do sangue argentino de origem galega. Vive na língua castelhana transfigurada pela influência simultânea dos galegos que vieram e dos brasileiros vizinhos. E como é que isso se traduz materialmente? Na simpatia crescente, a par que recua o desprezo tradicional, na música celta, que já transbordou os limites dos grupos da coletividade e floresce numa fusão partilhada por toda a população dos músicos novos. Na construção da unidade da Americado Sul, já sem reservas mentais a respeito do Brasil. É um processo mal conhecido na Europa, hoje dominada por forças adversas. A diáspora galega vive transfigurada.
Cada um destes temas pede um espaço que este formato não permite. Ao que leia só quero deixar uma sensação de confiança consciente e cauta no curso da história, que decerto nos leva para um futuro melhor. E a par fazer-lhe saber de que essa história só progredirá pelo labor dos envolvidos, o que significa que nada dará feito se não nos pomos à tarefa, que nada acontecerá se não o fazes tu mesmo. E eu não sou exemplo, que devera ter culminado uma obra sonhada que parece que vai ficar para outros.

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