Concha Rousia: «Aos pouquinhos fomos perdendo os espaços nos que crescer como seres coletivos»

Concha Rodrigues, mais conhecida como Rousia, nasceu em Covas (Terra da Límia). Preside o Instituto Cultural Brasil-Galiza e faz parte da Academia Galega da Língua Portuguesa.

Como é isso de ser poeta psicoterapeuta e labrega?

Podia resumi-lo com uma palavra: cultivadora; mas a ordem correta é: labrega, poeta, psicoterapeuta. Nasci no mês de São Miguel, outono; a terra prepara-se para curtir-se por dentro, enquanto o inverno passa; o inverno era tempo de passar o tempo ao pé do lume ouvindo os contos dos mais velhos, aprendendo os ofícios. Aí fiz-me poeta e acho que se fundaram os alicerces da psicoterapeuta; pois aí era também onde se resolvia tudo, falando. Recebiam-se os amigos, os pobres, os fugidos que iam a caminho de passar para Portugal. Então, quando o mundo era à medida do ser humano, tudo acontecia no espaço da conversa. Afinal, tudo o que eu faço é conversar. Converso com a terra e ela dá-me pimentos de Padrão, favas, couves para o caldo, flores… Converso com as dores do mundo e que por mim passam deixando poemas… Converso com as pessoas no meu espaço psicoterapêutico e todos nos curamos.

Como foi para te fazeres escritora?

Pois foi uma descoberta que aconteceu por acaso, não sei se poderia ter acontecido de outra forma, mas foi por acaso que aconteceu. Nos tempos em que a Internet nascia, há uns 15 anos, eu morava em South Carolina. Nascia um portal que se chamava Vieiros, agora fechado, para perda de todos e todas as galegas; Vieiros para o Natal criou um espaço que se chamava “Lume na Lareira” e todas as pessoas da Galiza que andávamos pelo mundo fomos convidadas para enviar um conto… Eu que nunca tinha escrito cousa nenhuma, se descontamos uns poemas desesperados na adolescência apôs a morte do meu pai, pedi a meu companheiro para ele escrever um conto para nós fazer parte, e ele então disse: escreve tu, conta o que lhe passou a teu pai com os lobos… Eu? Sim, tu… E escrevi, aí descobri que gostava, e atrás desse conto escrevi outro e outro, todos os acontecimentos de lobos que eu conhecia, contei… Daí passei a escrever o meu primeiro romance As Sete Fontes, que foi editado por ArcosOnline em 2005. E desde então o que fiz foi não parar, acho que é tudo que requer…

E a poesia como a descobriste…?

Muito boa essa escolha da palavra “descobrir” pois é isso o que fiz, descobrir a poeta. A poeta eu não a criei, em todo caso ela me cria a mim. Quando terminei esse meu primeiro romance As Sete Fontes. o que acho é um romance muito digno. Tentei publicá-lo nas editoras galegas. Na altura eu ainda não tinha optado pola escrita internacional da nossa língua, embora de sempre me seduzia, mas era por ser eu rebelde contra o colonialismo castelhano que se nos impõe na cultura; então tentei mostrá-lo nas editoras do nosso país, e achei falta de interesse. Penso que o meu romance mostra uma Galiza que as editoras, e os escritores modernos galegos, queriam deixar para o esquecimento, mas eu não podia fazer isso. Na narrativa não encontrava escritores galegos aos que me agarrar para seguir e fiz isso: começar de zero. E isso não deu certo para o mundo editorial galego. Eu estava, e estou, feliz com o meu romance, mas que não interessasse ao mundo editorial galego acho que me deixou triste… E aí a poeta veio a meu resgate. Mas a poeta já começara a acordar durante o romance, talvez para me ir preparando para o país no que vivo, e ao que pertenço.

Porque escreves sob o nome de Rousia?

Uso o nome de Rousia porque ela é a minha co-autora. A Rousia é o nome da montanha que via todos os dias desde a janela da cozinha (ela é, nada menos do que o pico mais elevado da serra do Larouco, essa serra com nome de deidade celta). A minha mãe falava na Rousia sempre: “olha, temos neve na Rousia”, “Deus, arde a Rousia”, “baixa a névoa na Rousia”. A Rousia é a montanha que une Portugal com a Galiza, dos dous lados da raia vivem as mesmas lendas sobre ela, essa nossa montanha que tem um braço de mar dentro… Ela vai-me ajudar a conectar a minha escrita com a Lusofonia; mas o motivo da escolha não foi esse, o motivo foi que não me considero “proprietária” do que escrevo. Só conto o que é de todos, reconto. Sou uma voz de vozes, e portanto não estaria bem assinar eu sozinha. Quando escrevo artigos profissionais do âmbito da psicologia eu assino como Concha Rodrigues, aí sim.

Fala-nos de Nântia, teu último romance.

Nântia é a minha filha literária mais jovem. Ela é tudo que eu quero ser, mas ainda não consegui. Nela posso-me projectar. A minha filha de carne e osso, Nerea, já me tem dito que Nântia é ela, então já está tudo em ordem. Nântia é um romance que tem lugar num mundo que vai ainda vivo em nós mesmo que fora o estejam matando.

O que é isso do “livro ambulante”?

O livro ambulante nasceu de uma ideia que se me ocorreu no contexto do facebook, para combater o meu imenso desejo de enviar a meus amigos e amigas do Brasil o livro de Nântia; como enviar para todos seria impossível, decidi fazer uma lista de todas as pessoas que queiram ler o meu romance. Enviei para a primeira pessoa da lista e essa pessoa, assim que ler, vai enviar para a segunda da lista, e essa para a terceira e assim até o final da lista. É algo experimental, que está começando e já estou adorando. O livro vai começar sua andaina em São Paulo.

E como chegas ao Partido da Terra?

A grande perda que sinto, que levam no seu ventre todas as demais, é a perda da comunidade, o contexto humano onde a vida acontece. Aos pouquinhos fomos perdendo os espaços nos que crescer como seres coletivos, reduzidos a estas terminais de consumo em que o capitalismo selvagem nos quer converter. Neste sentido, vejo que o Partido da Terra tenta fazer desde a política o que eu tento fazer desde a poesia, desde a minha escrita. Não há nada mais urgente do que defender a nossa forma de viver, a nossa forma de estar no mundo. Quando estamos convencidos é uma forma respeitosa com todas as pessoas e com o nosso planeta.

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