Carlos (Langas) Outeiral : «parto da ideia de que políticas somos todas»

Carlos Outeiral “Langas” é de Cando, na Terra do Tambre. É trabalhador florestal, ator de teatro amador e apaixonado pola ornitologia e agricultura biológica. Foi candidato do PT nas eleições de 2012.

Trabalhas no setor florestal. Como estão os nossos bosques?

Poderia fazer um paralelismo com a situação da Galiza em geral e concluiria que é de progressivo esnaquiçamento. Sempre gostei de andar polo bosque, mormente se este é de frondosas próprias do país, mas foi a partir de trabalhar para a empresa pública Seaga que comecei a dar-me conta da desfeita: desordem absoluta, repovoamento com espécies alóctones e pirófitas, caminhos antigos abandonados que bem poderiam aproveitar-se para a revitalização do bosque ou lazer, mas também logisticamente na hora dos lumes, que é por enquanto no que estou. Falando disto, os incêndios são um negócio no que o que se faz é pôr remendos a base de ações mediáticas onde ninguém se preocupa por saber a verdade, apenas em aplaudir o que aparece, mas quando estás na primeira linha percebes o que estão a fazer. A época de risco do verão passado foi um bom exemplo disso ao entrarem mais duas empresas juntando-se às que estávamos (Junta e Seaga). Essas duas empresas eram uma privada, encarregada das brigadas helitransportadas, e outra estatal semi-privada. A questão foi imediata: tendo um dispositivo da Conselharia e outro serviço próprio, por que é que se contratam empresas alheias tanto no âmbito como na condição de públicas, embora sejamos conhecedores das práticas liberais deste governinho. A elas temos que lhe juntar os serviços municipais e o exército, inoperante e símbolo de domínio e espanholização ao ser subido ao pedestal social através de capas e entrevistas nos jornais e televisões. O caos foi total na hora da organização. A sorte foi que não ardeu quase nada, sorte para todos e todas e para a nossa natureza.
O esbanjamento recoberto de falsa eficácia é terrível. Incêndios pequenos são combatidos com dous ou três helicópteros ou mesmo algum avião, enquanto os bulldozers completam o trabalho em terra (encarregam-se na maioria dos casos de alargar os perímetros) rematando a desfeita, neste caso natural. A floresta como muitos setores produtivos galegos é apenas um sustento de riqueza de poucos, degradado e doente que se mantém com respiração assistida.

Mas, há mais cousas que natureza e incêncios…

Com certeza, os bosques também são portadores de muita riqueza patrimonial. Eu que gosto de arqueologia, posso dizer, após visitar quase todas as manifestações pré-históricas, mormente megalíticas, mas também da Idade do Bronze e do Ferro, que as continuamos a ter graças a estarem relativamente longe da ação humana. Ainda assim perdemos muitas dessas manifestações e ainda estamos a perdê-las. O abandono é total. Dá-me muita pena esta sociedade que aplaude com as orelhas monstros como a Cidade da (in)Cultura enquanto o castro, petróglifo ou túmulo que tem ao lado é destruído impunemente. Mostra disto foi o acontecido com o castro de Taramancos em Noia, castro costeiro único que está sendo arrasado para construir justo por cima uma dessas pontes inúteis pensada apenas para os turistas. Como dizia El Roto, à destruição chama-lhe progresso e ninguém se porá em contra.

O teu âmbito natural é a aldeia, por quê?

Olha, nasci e cresci na aldeia, mas também é bom sempre estar no lado contrário e assim já vivi por vários anos em cidades. Mas é certo que estou intimamente ligado à vida na aldeia, aliás é toda a minha vida. Considero a aldeia como parte da solução a muitos problemas, um deles a recuperação do meu país. Tudo passa por recuperarmos as formas de viver tradicionais, antes de que as consecutivas PAC’s, Monsantos e demais alimárias afastaram as pessoas da terra, do respeito lógico e milenário que lhe tinham à natureza, pois dela dependiam para sobreviver. As casas abertas, a ajuda entre os vizinhos, a mancomunidade de serviços e trabalhos, mas também a recuperação da nossa língua e património cultural. Na minha é abraiante escutar falar com infinitivos conjugados, futuros de subjuntivo e léxico que noutros lugares crucificariam. Não sabemos onde estamos, a sério, faz falta que alguém organize convívios com a gente do rural para que muita gente alheia, alienada se dê conta da riqueza que tem e o mais importante: que é sua. A aldeia não fica alheia à falsa globalização. Hoje vê-se o que há anos, quando eu era criança por exemplo, era impensável: na minha aldeia há já pais e mães a educarem as suas crianças em castelão. O cancro estende-se por toda a parte.
A cem metros da minha casa há uma escola unitária que daqui a um ano fechará de vez. Levo lá a minha filha de cinco anos, galego-falante, criada com léxico próprio galego que com esforço lhe fomos ensinando, num entorno familiar e vizinhal cento por cento galego-falante… para quê? Chegou à escola e todo o léxico desapareceu e foi progressivamente substituído por palavras castelãs. A janela passou a ser “ventana”, o amarelo já nunca mais foi amarelo, também não o vermelho, branco, os coelhos, as bolachas, a névoa, transformaram-se em “conexos”, “ghalhetas”, “niebla”,… e assim. O pior é que foi a escola quem fez tudo o contrário do que deveria como centro de aprendizagem e cultura. A escola é mais que nunca um dos lugares mais desgaleguizadores que há. Nessa escola unitária o mestre pouco se diferencia dum de Burgos. Por castelanizar até castelanizou o nome da nossa filha -nome com “nh” que passou a “ñ”. Após termos as nossas brigas o conto melhorou, mas são migalhas comparando-o com o que seria normal noutros lugares e línguas. Os demais pais e mães não se importam, essas são cousas de “radicais”, o normal para elas é deixar de serem galegas. Assim e tudo, continuo a dizer que parte da solução está na aldeia.

Que precisa a aldeia para virar exemplo de recuperação da Galiza?

Começaria por mim próprio e as pessoas mais próximas para a seguir estender o modelo. Estamos começando ainda com todo o que tínhamos pensado -dentro das nossas possibilidades- mas tentamos mudar algumas maneiras de ver a vida no rural.
Na aldeia ainda há uns vizinhos que têm um carro de vacas. Eis a metáfora, ou não tão metáfora, da recuperação. O carro de vacas significa muitas cousas: vida com animais, limpeza dos agros, não poluição nem dependência do petróleo, maior contato com a natureza, diferente ritmo de vida,… Mas o círculo tem de ser perfeito. As práticas e labores agrícolas tem de ser as próprias da agricultura ecológica, como sempre se fez. A compostagem que hoje fazemos não é mais que uma continuação melhorada do que os nossos pais e avôs já faziam, quando tudo era misturado no que aqui se chamava o “chiqueiro”, também com excrementos humanos. Um banho seco será um novo passo na nossa casa, de maneira alternativa. Técnicas de bio-construção sempre que se puder, flora e fauna para o nosso proveito -ajuda na agricultura- e aumento da biodiversidade, bicicleta, recuperação de caminhos, lugares degradados, recuperação de água da chuva e “grises”, etc. Em síntese, tudo o que se entende por permacultura, não podendo nenhuma parte explicar-se sem as outras.

E como decidiste envolver-te em política?

Eu nunca estivera antes em nenhum partido político e foi há uns meses que dei o passo. Estive nalgumas associações ambientalistas, de defesa da língua, centros Sociais, … e percebi que com o Partido da Terra conseguia reunir tudo isso e muito mais.
Para mim o PT é um grupo de pessoas que pensamos em mudar realmente as cousas, não apenas nas semanas prévias a eleições. Não gosto de chamar-lhe partido político, no conceito hoje dominante, pois parto da ideia de que políticas somos todas, “politikés”, ao jeito grego clássico, membros da Polis e, portanto, devemos agir, sem intermediários. A aldeia, bairro, paróquia devem ser os nossos espaços jurídicos e de ação, dependendo só de nós próprios onde os problemas locais tenham soluções locais.
Para além disso, o PT é o partido da terra, da terra sentimental e da física, da terra arelada, da terra futura. É tudo aquilo que sempre pensei que devia ser.
Pode haver quem pense que o seu máximo sucesso é afrontar sem medo algum e sem complexos a questão ortográfica, mas eu vejo-a do lado doutros desafios, como a da plena soberania em todos os âmbitos.
O assunto da grafia é fulcral. Há muitos exemplos de gente que abandona a língua ao não ver-lhe utilidade, devida em parte a que sabem direta ou indiretamente que se converteu num dialeto do castelão e recorrem a este como norma culta. Um destes exemplos claros é o que sempre lhe digo a muita gente: o caso dum médico que vai com o galego ILG a um congresso internacional aonde leva com ele a palavra “patóxeno”. Os demais colegas não entenderiam nunca o “xeno”, significando etimologicamente “estrangeiro” enquanto os demais usam o lógico “geno”, entendendo todos o que é: origem da doença, pathós-genos.
O galego nestes trinta anos de despropósitos foi uma cousa que poderíamos comparar aos porcos no cortelho: damos-lhe de comer, mas o que lhe espera é a morte. Criamos um monstro e após trinta anos vai sendo hora de o largar das nossas vidas.

Para terminar esta entrevista, escolhe uma frase que resuma o dito.

Masanobu Fukuoka escreveu um livro intitulado A Revolução duma Folha de Palha. Eis a revolução na que devemos pegar. Começarmos polas cousas certas mesmo que pequenas. Amemos tudo neste mundo sem preconceitos nem fronteiras, especialmente as mentais. Escolho uma frase lembrando uma outra da História mais amarga: “Kenntnis macht frei” – “o conhecimento liberta”.

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