Vídeo de campanha para as europeias

O vídeo homenageia o libertário galego Ricardo Melha e será emitido nos espaços eleitorais gratuitos de todo o Estado

O Partido da Terra vem de lançar nas redes o “spot” de campanha que será emitido em todo o Estado espanhol durante os espaços eleitorais das diversas televisões públicas. Se nas eleições ao Parlamento da Galiza de 2012 o PT decidiu recuperar a figura de Ramom Obelha, galeguista histórico e proponente da “autodeterminação funcional”, desta vez o vídeo homenageia o ativista libertário viguês Ricardo Melha (1861-1925), sintetizando o discurso do seu artigo “Vota, pero escucha”, publicado originalmente em Solidaridad Obrera (n.º 4, 1909), que se reproduz abaixo em versão traduzida.

O vídeo de 30 segundos foi produzido por Irene Basanta Pin (Imos á Lua), que recentemente levou a sua curta Querido Godot à I Mostra de Curtametragens de Muimenta, e situa-se no dia 26 de maio, na jornadas a seguir às eleições, fazendo um apelo à necessidade e responsabilidade individual de agir para transformar a nossa realidade imediata. A voz em off é do companheiro Carlos Outeiral Mininho do Partido da Terra de Cando. Tanto este vídeo como os anteriores e outros materiais audiovisuais estão disponível no canal de Youtube do PT, liberados sob licença CreativeCommons.

«Vota, mas ouve», de Ricardo Melha

Teve, nas vésperas das passadas eleições, a humorada de achegar-me ao paraíso de certo teatro onde se celebrava um mitin eleitoral. Era para mim um espectáculo novo no que tomavam parte antigos amigos de amplas ideias com gente nova de limitadíssimas orientações. Fui embora desse lugar com a cabeça quente e os pés frios. Teve de suportar uma regular enxaqueca de providencialismo político e, naturalmente, sofri as consequências. Estou maravilhado. Não passam os doas pola gente. Não há experiência bastante forte para abrir-lhes os olhos. Não há razão que os afaste da rotina.

Como os crentes que tudo confiam na providência, assim os radicais, embora se chamem socialistas, continuam colocando as suas esperanças nos concelheiros e deputados e ministros do respectivo partido. «Os nossos concelheiros farão isto e isto outro e ainda mais». «Os nossos deputados conquistarão tanto e quanto e tanto mais.» «Os nossos ministros decretarão, criarão, transformarão quanto haja que decretar, criar e transformar». Tal é o ensinamento de ontem, de hoje e de ama­nhã. E assim o povo, a quem se apela a toda hora, continua apreendendo que não tem outra cousa a fazer para além de votar e aguardar pacientemente a que tudo se lhe dê já feito. E vai e vota e aguarda.

Tentado estive de pedir a palavra e arremeter de frente contra a falsa rotina que deste jeito adormece à gente. Tentado estive de berrar aos trabalhadores lá presentes e em grande maioria:

«Vota, sim, vota; mas ouve. O teu primeiro dever é sair daqui e de seguido atuar por conta própria. Vai-te e em cada bairro abre uma escola laica, funda um periódico, uma biblioteca; organiza um centro de cultura, um sindicato, um círculo operário, uma cooperação, algo do muito que fica por fazeres. E verás, quando tenhas feito tudo isto, como os concelheiros, os deputados e os ministros, embora não sejam os teus representantes, os representantes das tuas ideias, seguem esta corrente de ação e, por seguí-la, promulgam leis que nem lhes pedes nem precisas; administram conforme estas ten­dências, embora tu nada lhes exijas; governam, enfim, segundo o ambiente por ti criado diretamente, embora a ti nada che importe o que eles façam. No entanto, agora, como te cruzas de braços e dormes sobre os loureiros do voto-providência, concelheiros, deputados e ministros, por muito radicais e socialistas que sejam, continuarão a rotina dos discursos vazios, das leis estúpidas e da administração covarde. Hás suspirar pola instrução popular e hás conti­nuar burro como antes; hás clamar pola liberdade e hás continuar tão amarrado à argola do salário como antes; hás de­mandar igualdade, justiça, solidariedade, e terás moreas de decretos, leis e regulamentos, mas nem um ápice daquilo ao que tens direito e do que não gozas pois nem sabes nem queres tomá-lo pola tua própria mão».

«Queres cultura, liberdade, igualdade, justiça? Pois vai lá e conquista-as, não queiras que outros venham dar-chas. A força que tu não tenhas, sendo-o tudo, não a terão uns poucos, pequena parte de tu próprio. Esse milagre da polí­tica não se realizou nunca, jamais se realizará. A tua emancipação será a tua própria obra, ou não te emanciparás polos séculos dos séculos».

«E agora vai embora e vota e arrebita a tua cadeia».

Vídeo Eleições Galegas 2012

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