Eume: frente à destruição, soberania

O modelo de “ordenação” paternalista baseado no “interés general” esquece que se as Fragas chegaram aos nossos dias foi precisamente polo seu aproveitamento tradicional

O atentado em forma de incêndio florestal provocado (três focos) nas Fragas do Eume queimou aproximadamente 2.000 hectares, incluindo áreas de altíssimo valor ecológico, ante a impotência dos vizinhos e das comunidades das paróquias afetadas e circundantes. A progressiva intervenção estatal em favor de interesses industriais concretos tem despossuído estas comunidades da capacidade de se autogerirem e de se relacionarem com o território segundo as lógicas tradicionais sustentáveis. A criação do Parque Natural em 1997 não serviu para retomar a gestão da vizinhança senão que acarretou maiores limitações.

O modelo de “ordenação” paternalista e desidentificador baseado no “interés general” esquece que se as Fragas chegaram aos nossos dias foi precisamente polo aproveitamento tradicional e comunal do território por parte das comunidades assentes nelas e que a sua restauração e viabilidade futura depende por completo dessas comunidades e não em destinar exponenciais quantidades de dinheiro público a governar interesseira e despoticamente o território de acima para abaixo, com atenção preferente aos interesses do grande capital (ou do Estado, que é o mesmo).

Longe de visões continuadoras, de autosatisfação ou de rendibilidade política de curto alcanço, achamos que a mudança de paradigma deve ser a prioridade e não o aprofundamento do atual modelo. Comunidades donas novamente dos seus recursos (paisagem, vento, água, território, etc.), autogestionados, de preferência comunitariamente, que estabeleçam com maioria de idade e, portanto, com responsabilidade as formas de aproveitamento mais pertinentes para si próprias e para quem virão depois delas. No caso da Terra das Fragas do Eume, tal vez uma gestão comunitária dum aproveitamento paisagístico do território e o estabelecimento dos oportunos sistemas de trabalho e defesa, inclusive os de defesa contra incêndios, cooperativa ou colaborativamente com outras comunidades através do apoio recíproco. Em síntese, a soberania das comunidades sobre os seus recursos e autogestão responsável.

Também não se pode esquecer a chamada cultura do lume (nem a quase sempre omitida, mas hoje imponente, indústria da defesa contra incêndios, majoritariamente em mãos do Estado ou empresas concessionárias) e neste sentido advogamos, no sistema atual, por uma investigação exaustiva que permita o castigo do ou dos culpáveis deste e outros atentados que se repetem ano trás ano numa crescente espiral de lucro e destruição. Frequentes têm sido os incêndios destinados a deixar sem valor florestal ou paisagístico montes para uma futura instalação de indústrias, dentre as quais destaca a eólica, mas também a mineira. Conhecidos são os interesses atuais de instalação duma mina de andaluzita e também o facto de se produzir o primeiro foco precisamente onde está projetada esta exploração de mineral. Neste sentido, todas as hipóteses devem ser investigadas e os culpáveis encontrados.

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